Introdução
“Falar sobre o futuro é arriscar previsões”. E falar sobre futuro ajuda-nos a perceber como queremos que este seja, quais os problemas que queremos ver resolvidos e quais os sonhos que queremos que se tornem realidade.
O mesmo acontece quando falamos do automóvel. Falando do futuro do automóvel descobrimos: a) quais os problemas que ele gera no presente e que não devem existir no futuro e b) quais as funcionalidades que queremos que o automóvel do futuro tenha. Neste exercício acabamos por questionar se haverá um automóvel no futuro…porque este poderá ser substituído por outros artefactos e outras soluções de transporte ou porque a necessidade de ser transportado poderá desaparecer.
A melhor forma de imaginar o automóvel do futuro é falar sobre este, sobre o seu papel, sobre os seus problemas. Falar com os nossos amigos, falar com os especialistas, falar com as crianças, falar com pessoas que gostam e que não gostam do automóvel. As discussões frequentes entre pessoas de culturas e experiências diferentes beneficiam da imaginação e das competências distintas e complementares da multidisciplinaridade. Destas discussões resultam visões complexas e abrangentes do automóvel do futuro, que reflectem os sonhos dos participantes.
Qualquer visão do automóvel do futuro contém sugestões de resolução dos problemas do presente e funcionalidades novas. A partir desta visão surgem os protótipos de carros do futuro que são apresentados nos salões automóveis. Às vezes esquisitos e com aspecto muito futurista, estes protótipos acabam por influenciar o nosso presente, porque parte das suas soluções são adoptadas nos automóveis do presente, passo a passo, permitindo que os utilizadores se habituem com a visão do futuro…
Neste artigo tenta-se delinear uma tal visão do automóvel do futuro, resultado de discussões que a autora teve com várias pessoas, de profissões e experiências distintas, em ambientes informais. A visão apresentada foi influenciada pelas conversas tidas e representa um sonho colectivo do automóvel.
O artigo está dividido em duas partes. A primeira parte aponta para um conjunto de problemas que o automóvel cria no presente, problemas esses identificados através de pesquisas na Internet e discussões individuais. Não se tenciona apresentar uma lista exaustiva dos problemas do automóvel do presente, mas realçar os mais importantes.
A segunda parte apresenta o resultado da aplicação de técnicas criativas (ex. brainstorming): o modelo conceptual de um automóvel do futuro e as suas funcionalidades. A visão do automóvel do futuro imaginado pela autora, que resultou das várias discussões sobre este assunto nos últimos dois meses, é apresentada através de cenários de utilização deste automóvel. Isto porque se acredita que os cenários representam a melhor forma de transmitir uma visão complexa a um grande leque de leitores, de experiências e culturas diferentes.
O objectivo deste artigo é fazer os seus leitores sonhar, imaginar o automóvel do futuro, sem ficar agarrados aos paradigmas do presente mas considerando os problemas que o nosso presente gera, envolver outras pessoas na discussão e ajudar, desta forma, a que o automóvel do futuro seja o resultado de uma visão quanto mais abrangente possível.
O automóvel e o presente
É importante percebermos o que o automóvel representa hoje e quais são os seus efeitos sobre a qualidade de vida dos indivíduos, a sua saúde e o desenvolvimento económico. Para isso, é necessário compreender as situações de grande utilização do automóvel que criam os efeitos mais significativos (ex. a deslocação para o local de trabalho nos espaços urbanos).
O automóvel é antes de mais nada um meio de transporte. É um artefacto que resolveu o problema da mobilidade dos indivíduos no século XX. É um artefacto que continua um objecto de desejo e reflexo do nosso estilo, mas que já é um bem comum.
Milhões de pessoas de todo o mundo o utilizam diariamente para chegar ao local de trabalho. E outros milhões o utilizam para trabalhar. É este mesmo artefacto que nos cria hoje problemas de mobilidade, essencialmente nas grandes aglomerações urbanas, precisamente devido à sua vulgarização.
Luta pela mobilidade
Actualmente, mais de 75% da população europeia é citadina e a percentagem continua a crescer. Como a infra-estrutura de transportes das cidades europeias não está adaptada ao grande número de indivíduos que se deslocam diariamente para os seus locais de trabalho ou para outros destinos utilizando o automóvel, aparecem problemas frequentes de gestão de trânsito.
Os engarrafamentos de hoje afectam a mobilidade das pessoas, desta vez de forma negativa, e afecta também a economia urbana. Porque ao lado dos automóveis tentam chegar ao destino os transportes públicos urbanos (de superfície), os transportes de mercadorias, os (moto)ciclistas e os peões. E se os (moto)ciclistas e os peões conseguem encontrar o caminho, fácil ou dificilmente, os outros não têm tanto sucesso.
Entre todos estes participantes no trânsito citadino existe actualmente uma concorrência que só pode ter sido gerada por uma má coordenação e integração dos meios de transporte urbanos.
Não existe actualmente um sistema integrado e inteligente de transporte urbano que tenha conseguido solucionar os problemas de mobilidade das pessoas e dos bens pessoais que estas carregam, oferecendo simultaneamente segurança, conforto, flexibilidade e elevada disponibilidade.
Não existe um sistema deste tipo que consiga chegar perto da mobilidade universal (ex. permitir a circulação eficaz e fluida de pessoas com deficiências motoras permanentes, idosos, pessoas com crianças e/ou cargas e pessoas com incapacidade temporária).
É por isso que as pessoas utilizam os seus automóveis, solução flexível, confortável, que assegura o seu transporte e o transporte dos bens pessoais para os locais de trabalho e noutras situações dentro da cidade. Mesmo com problemas de trânsito e demoras, o automóvel cumpre o seu papel.
Efeitos secundários da mobilidade automóvel
Os automóveis são os meios de transporte mais utilizados nas cidades, por falta de alternativas razoáveis, por desconhecimento dos meios de transporte alternativos ou por serem considerados mais confortáveis.
Emissão de CO2
O funcionamento do automóvel gera quantidades significativas de CO2 e em viagens curtas, feitas por exemplo na cidade, esta quantidade é ainda maior por causa dos problemas de carburação na fase de aquecimento dos automóveis.
Mais de 10% de todas as emissões de CO2 provêem dos transportes urbanos. A União europeia prevê que de 1990 a 2010 a quantidade de CO2 resultante destes transportes aumente cerca de 40%.
O aquecimento global devido à poluição e à quantidade de CO2 emitida pelas indústrias e transportes pode periclitar o futuro da humanidade. O protocolo de Kyoto tenta assegurar que haja uma preocupação permanente dos estados relativamente à protecção do ambiente. A diminuição do nível de CO2 emitido em cada país é uma das metas estipuladas no protocolo.
Torna-se, então, indispensável que se encontrem formas de diminuição da quantidade de CO2 resultantes dos transportes urbanos e, essencialmente, dos automóveis.
Poluição
Viver hoje numa cidade obriga a suportar o ruído feito por milhares de automóveis, os seus motores, as suas buzinas e as vozes de condutores insatisfeitos. O que há anos era considerado o “barulho agradável da cidade” já não o é, devido ao número elevado de automóveis que circula cada dia no meio urbano.
As emissões de gases de escape também afectam a qualidade do ar urbano e o número de doenças respiratórias da população citadina tem vindo a crescer vertiginosamente nos últimos anos.
É essencial que se encontrem formas de redução do nível de poluição para devolver aos citadinos a sua qualidade de vida.
Circulação dos peões
Viver hoje numa cidade pressupõe, muitas vezes, participar numa corrida de obstáculos, tentando deslizar entre os automóveis estacionados na passadeira ou caminhar na estrada, porque o espaço tradicionalmente dedicado a peões está invadido pelos automóveis, já peças comuns do “mobiliário urbano”.
Áreas dedicadas exclusivamente à circulação de peões têm vindo a aparecer nas grandes cidades. Contudo, o comum é o peão não ter o seu espaço para caminhar e ser obrigado a invadir o espaço dos outros participantes no trânsito, o que aumenta o risco de acidentes e testa a capacidade de reacção e prevenção dos condutores.
E os efeitos não tardam em aparecer: a maioria dos peões feridos e mortos verificam-se em acidentes ocorridos dentro das cidades e resultam, na sua generalidade, de atropelamentos.
Enquanto surgem os novos paradigmas de mobilidade urbana e sustentabilidade, os problemas ligados ao desrespeito do peão em prol do automóvel, que datam dos anos 60, continuam actuais. E a cidade deve considerar respeitar os dois lados, privilegiando o peão.
Acidentes de viação
Desde a década de 70 a preocupação com a segurança rodoviária tornou-se premente e continua um problema actual. Com o aumento de acidentes de viação devido ao stress, cansaço e indisciplina dos condutores, é essencial que os automóveis estejam dotados de dispositivos que minimizem os efeitos dos acidentes de viação.
Mas os próprios condutores têm a capacidade de prevenir os acidentes se aplicarem os princípios da condução defensiva. Conduzir desta forma implica reconhecer que a actividade de condução na via pública é uma actividade de elevado risco para a saúde e para a vida. A precaução na condução é o primeiro passo para a segurança.
Este conceito, contudo, é desconhecido pela maioria dos condutores.
Stress
A falta de espaço de circulação urbana e a sua má gestão impedem um comportamento civilizado dos participantes no trânsito. Para chegar ao destino, muitas das vezes têm que se fazer manobras complicadas e arriscadas e a imaginação dos citadinos gasta-se no encontro de soluções inéditas e cada vez menos eficientes.
E o stress que a circulação numa cidade gera, torna os condutores impacientes e propensos a erros, que custam vidas humanas. E é o mesmo stress que afecta a sua própria saúde e aumenta a probabilidade de doenças cardíacas e de depressões.
Mas o stress não ataca só os condutores e os peões participantes no trânsito, mas também os habitantes da cidade, nas suas casas, que sofrem com a imagem desoladora dos engarrafamentos e dos milhares de automóveis que passam por baixo das suas janelas ou mesmo ao lado das suas casas. Sofrem também com os intermináveis atrasos dos outros habitantes, presos no trânsito, algures na cidade.
Sedentariedade
A nossa sociedade depara-se com uma tendência de aumento de sedentarismo. Por falta de exercício, por causa do trabalho, cada vez mais localizado no escritório, por causa do stress e da má alimentação e finalmente por causa do transporte confortável no seu automóvel, as pessoas têm ganho peso.
Tudo isso porque na cidade repete-se monotonamente o seguinte cenário. Os indivíduos saem de casa, entram no seu automóvel, conduzem até ao local de trabalho, trabalham na sua secretária, voltam para casa ao volante e depois recostam-se no sofá, cansados.
A sedentariedade é influenciada pelo uso do automóvel. A utilização de soluções alternativas, por exemplo da bicicleta, para se deslocar para o trabalho, poderá ajudar a inverter essa tendência.
O automóvel e o futuro
Uma forma de imaginar o automóvel do futuro é tentar resolver os problemas do presente. Obtém-se, neste caso, uma visão mais incremental do automóvel, mais perto do que conhecemos hoje. É o que fazem a maioria dos departamentos de I&D das empresas que produzem automóveis, acessórios ou outros produtos relacionados com o automóvel. É o que costumam fazer os organismos públicos responsáveis com a infra-estrutura de transportes urbanos e as organizações com poder de decisão a nível nacional e internacional. E as soluções existem, estão a ser desenvolvidos e tenta-se a sua aplicação no mercado, com mais ou menos sucesso. Não é o objectivo deste artigo entrar por aí.
Uma outra forma de imaginar o automóvel do futuro, que leva a soluções mais radicais, é contrariar os paradigmas actuais ou, pelo menos, ignorá-los enquanto criar o modelo conceptual do automóvel que queremos ter no futuro.
A utilização do brainstorming em equipas multidisciplinares, com especialistas e não especialistas no automóvel pode levar a soluções surpreendentes. A utilização desta técnica em discussões individuais e informais também resulta muito bem.
Procura-se, neste caso, identificar as funcionalidades que o automóvel do futuro deverá ter. Procura-se mudar o paradigma: o homem é subjugado pela máquina, que somente consegue proporcionar um leque de soluções. Imagina-se, neste caso, que o homem tem necessidades e que devem encontrar-se soluções que as satisfaçam.
Aliás, uma das grandes surpresas que surge depois de criar um modelo conceptual futurista utilizando este tipo de abordagem é que há tecnologia e até produtos que viabilizam o modelo conceptual e potenciam a sua expressão num protótipo. O futuro “futurista” é, muitas vezes, mais perto do presente do que estamos a contar.
Utilizando o brainstorming em discussões individuais, a autora delineou um modelo conceptual do automóvel do futuro, que apresenta as funcionalidades deste automóvel. Os temas utilizados nas discussões foram do género: Estamos em 2015. Como é que vê o carro do futuro? Como é que se imagina naquela altura? Estará a conduzir? Como? O que é que o automóvel do futuro deveria fazer e não fazer? O modelo conceptual que resultou apresenta-se abaixo.

Os princípios funcionais apresentados no modelo conceptual estão descritos de seguida.
• Adaptação e flexibilidade face ao utilizador: o automóvel do futuro deve proporcionar soluções de condução, entretenimento, comunicação, conforto, segurança etc. a cada passageiro, rápida e facilmente, automática ou manualmente.
• Optimização do conforto: o automóvel do futuro deve permitir que cada passageiro tenha o conforto de que precisa e que quer, sem incomodar os outros passageiros.
• Amigo do ambiente: o automóvel do futuro não deve poluir, deve ser construído com materiais recicláveis e pode ajudar a melhorar a qualidade do ar urbano.
• Integração no sistema de transporte urbano: o automóvel do futuro deve ser pensado como parte de um sistema de transportes, um artefacto que respeita os outros participantes no trânsito e que se desloca de forma inteligente, evitando as zonas de maior trânsito.
• Entretenimento, educação e bem-estar: o automóvel do futuro, como espaço não somente para ser transportado, mas também para viver, deve proporcionar condições ímpares de entretenimento, bem-estar e estudo para cada passageiro.
• Durabilidade e robustez: o automóvel do futuro deve ser fiável e robusto, com um período de vida útil elevado.
• Protecção dos utilizadores: o automóvel do futuro deve evitar que a integridade física dos passageiros seja afectada, tanto evitando acidentes de viação como evitando pequenos acidentes no seu espaço interior.
• Manutenção fácil e automática: o automóvel do futuro deve evitar que hajam avarias e, quando estas não podem ser evitadas, a sua reparação deve fazer-se automaticamente ou pelos próprios utilizadores, sem recorrer a especialistas.
• Usabilidade: o automóvel do futuro deve ser facilmente utilizável por qualquer passageiro, sem precisar de formação específica. A utilização deve ser intuitiva.
• Ubiquidade: a tecnologia do automóvel do futuro deve ser omnipresente, mas não visível. O automóvel do futuro não é uma mostra de tecnologia, mas um artefacto funcional.
• Ergonomia: o automóvel do futuro deve oferecer condições óptimas para trabalhar (n.a. teletrabalhar). Comunicações, conforto, vibrações, luz, etc. tudo deve ser apropriado para trabalhar.
• Minimalismo: o automóvel do futuro deve oferecer somente as funções necessárias quando forem precisas. Deve igualmente ocupar o espaço estritamente necessário, podendo mudar de volume em função do número de passageiros.
A simples descrição dos princípios funcionais do automóvel não permite imaginar a sua utilização e não permite, às vezes, aos especialistas visualizar este modelo como um automóvel funcional. Recorre-se então à utilização de cenários, para transmitir melhor as ideias contidas no modelo conceptual.
Seguem-se dois cenários futuristas, baseados no modelo conceptual apresentado, que transmitem algumas das funcionalidades apresentadas, a título de exemplo. O primeiro foca no carro do futuro e assume que haverá um automóvel no futuro e que as pessoas continuam a utilizá-lo. O segundo apresenta uma solução de transporte do futuro, assumindo que o que os cidadãos precisam é uma solução eficaz, rápida, personalizada e de custo aceitável de transporte do ponto A ao ponto B.
Para imaginar os cenários, é preciso que se defina brevemente o seu contexto.
Assume-se que em 2015 (o futuro escolhido para posicionar os cenários):
• O automóvel continua a existir, tem mais funcionalidades, é um espaço para viver e ser transportado e faz parte de um sistema de transporte citadino que optimiza os meios disponíveis;
• O automóvel tem a capacidade de alterar o seu volume e a divisão do espaço interior de forma fácil e rápida;
• O automóvel e os outros meios de transporte não poluem o ambiente, nem pela emissão de gases, nem pela emissão de sons;
• O automóvel respeita os outros participantes no trânsito, minimiza o espaço que utiliza e evita as zonas de possível engarrafamento.
• O automóvel e os outros meios de transporte estão equipados com a tecnologia necessária para encontrar o seu caminho, sozinhos, para comunicar com o exterior e para reconhecer os cidadãos. Todas as interfaces são ubíquas, intuitivas;
• O automóvel e os outros meios de transporte têm a capacidade de se dirigir em tempo útil para um destino estabelecido, função das instruções recebidas de um sistema central;
• Os cidadãos mudaram de mentalidade e preferem uma solução eficaz, rápida e de grau de conforto personalizado a utilizar o automóvel em todas as circunstâncias.
• Etc.
Apresentam-se, de seguida, os dois cenários de utilização do automóvel do futuro, a título exemplificativo.
O carro em 2015
…mais um dia de trabalho acabou...conduzo...vejo a cidade…os seus limites transformam o meu carro num artefacto minimalista, que ocupa o espaço estritamente necessário…não há ninguém comigo e só trago uma mala…o meu carro diminui de modo a não gastar espaço desnecessário…a sua pele encolhe…muda de volume…
…encontro um amigo…dou-lhe boleia… o carro estica para o acomodar… falamos… ponho o piloto automático…o carro calcula o melhor caminho para casa e evita as zonas de maior trânsito… quero mostrar ao meu amigo fotografias da minha filha… os vidros transformam-se em ecrãs e o seu sorriso lindo transparece das janelas… apetece-me falar com ela e ligo-lhe… o seu sorriso digital agora tem vida e vejo a minha casa acolhedora e estou impaciente de chegar lá… deixo o meu amigo frente à sua casa… o carro encolhe outra vez… e chego… carro na garagem… a mala é encaminhada logo para o quarto e eu vou ter com a minha família, relaxada e sorridente…
…o dia seguinte é feriado...saímos …vamos até a praia… o carro já sabe e tem espaço para todos nós…a prancha de surf está bem arrumada, a comida também (num sítio próprio para a manter em óptimas condições de temperatura e humidade) … e lá vamos… a minha filha lá atrás aproveita para jogar um jogo em linha com os seus amigos… o meu companheiro está a investigar qual o melhor sítio para acamparmos no próximo fim-de-semana…eu aproveito para enviar um postal electrónico aos nossos amigos australianos…cada um de nós tem o seu conforto e não incomoda o outro…a insonorização é selectiva… posso ouvir quando um deles me fala…o nosso carro nos leva entretanto até à praia…
Uma solução de transporte em 2015:
…são 09.05…o meu companheiro desafiou-me a ir até à praia…pego no meu terminal móvel e acedo ao Serviço de Transportes…selecciono o destino, indico o grau de conforto desejado, o número de passageiros, a bagagem e a hora de chegada…momentos depois, recebo três alternativas de viagem e os custos associados…escolho a mais barata…pegamos nas chaves e numa garrafa de água e descemos…09:14…o táxi pequeno, para duas pessoas aparece e pára à nossa frente… toco na carroçaria e a porta abre…sentamo-nos e as cadeiras se adaptam aos nossos corpos…a mala vai para trás…arrancamos…09:18... o táxi deixa-nos junto ao autocarro…a nossa mala está encaminhada automaticamente, nós nem lhe tocamos…arrancamos…09:39…chegamos à Barra…a nossa mala espera-nos no passeio, ao lado de duas bicicletas…colocamo-la no espaço dedicado à pequena carga e começamos a andar…09:55... já chegamos …e o custo da viagem é debitado na minha conta …
Considerações finais
O automóvel dá-nos mobilidade. Dá-nos gozo, também. Pode ser um reflexo da nossa imagem. Na maioria dos casos é uma solução prática ao nosso dispor. Ao mesmo tempo cria stress, poluição e mata. É preciso encontrarmos o caminho certo para continuar a gozar da condução sem afectar o nosso futuro e o futuro das próximas gerações. Sem afectar o nosso dia-a-dia, a nossa qualidade de vida.
O automóvel tem um futuro, como imaginámos no início desta reflexão. Mas não tem o mesmo futuro que imaginámos sem conhecer os seus efeitos e os problemas do presente…É preciso sonhar e imaginar como queremos que o automóvel seja no futuro e tentar encontrar soluções para os problemas do presente. Isto acontece quando nos apercebemos do seu presente e imaginamos o futuro sem considerar os paradigmas actuais. O resultado é um modelo conceptual futurista do automóvel que inclui soluções para os problemas do presente.
Sonhar o nosso futuro ajuda-nos a revelar o que podemos fazer para o construir. O que acontece com o automóvel do futuro aplica-se a muitos outros aspectos das nossas vidas. Imaginemos primeiro como queremos o nosso futuro, sem deixar que os problemas do presente nos subjuguem. E depois tentemos encontrar as soluções para construir este futuro que imaginámos. A satisfação quando conseguimos é imensa e faz com que este exercício valha a pena!
Irina Adriana Saur
Maio de 2004
Aveiro, Portugal