O automóvel e o presente
É importante percebermos o que o automóvel representa hoje e quais são os seus efeitos sobre a qualidade de vida dos indivíduos, a sua saúde e o desenvolvimento económico. Para isso, é necessário compreender as situações de grande utilização do automóvel que criam os efeitos mais significativos (ex. a deslocação para o local de trabalho nos espaços urbanos).
O automóvel é antes de mais nada um meio de transporte. É um artefacto que resolveu o problema da mobilidade dos indivíduos no século XX. É um artefacto que continua um objecto de desejo e reflexo do nosso estilo, mas que já é um bem comum.
Milhões de pessoas de todo o mundo o utilizam diariamente para chegar ao local de trabalho. E outros milhões o utilizam para trabalhar. É este mesmo artefacto que nos cria hoje problemas de mobilidade, essencialmente nas grandes aglomerações urbanas, precisamente devido à sua vulgarização.
Luta pela mobilidade
Actualmente, mais de 75% da população europeia é citadina e a percentagem continua a crescer. Como a infra-estrutura de transportes das cidades europeias não está adaptada ao grande número de indivíduos que se deslocam diariamente para os seus locais de trabalho ou para outros destinos utilizando o automóvel, aparecem problemas frequentes de gestão de trânsito.
Os engarrafamentos de hoje afectam a mobilidade das pessoas, desta vez de forma negativa, e afecta também a economia urbana. Porque ao lado dos automóveis tentam chegar ao destino os transportes públicos urbanos (de superfície), os transportes de mercadorias, os (moto)ciclistas e os peões. E se os (moto)ciclistas e os peões conseguem encontrar o caminho, fácil ou dificilmente, os outros não têm tanto sucesso.
Entre todos estes participantes no trânsito citadino existe actualmente uma concorrência que só pode ter sido gerada por uma má coordenação e integração dos meios de transporte urbanos.
Não existe actualmente um sistema integrado e inteligente de transporte urbano que tenha conseguido solucionar os problemas de mobilidade das pessoas e dos bens pessoais que estas carregam, oferecendo simultaneamente segurança, conforto, flexibilidade e elevada disponibilidade.
Não existe um sistema deste tipo que consiga chegar perto da mobilidade universal (ex. permitir a circulação eficaz e fluida de pessoas com deficiências motoras permanentes, idosos, pessoas com crianças e/ou cargas e pessoas com incapacidade temporária).
É por isso que as pessoas utilizam os seus automóveis, solução flexível, confortável, que assegura o seu transporte e o transporte dos bens pessoais para os locais de trabalho e noutras situações dentro da cidade. Mesmo com problemas de trânsito e demoras, o automóvel cumpre o seu papel.
Efeitos secundários da mobilidade automóvel
Os automóveis são os meios de transporte mais utilizados nas cidades, por falta de alternativas razoáveis, por desconhecimento dos meios de transporte alternativos ou por serem considerados mais confortáveis.
Emissão de CO2
O funcionamento do automóvel gera quantidades significativas de CO2 e em viagens curtas, feitas por exemplo na cidade, esta quantidade é ainda maior por causa dos problemas de carburação na fase de aquecimento dos automóveis.
Mais de 10% de todas as emissões de CO2 provêem dos transportes urbanos. A União europeia prevê que de 1990 a 2010 a quantidade de CO2 resultante destes transportes aumente cerca de 40%.
O aquecimento global devido à poluição e à quantidade de CO2 emitida pelas indústrias e transportes pode periclitar o futuro da humanidade. O protocolo de Kyoto tenta assegurar que haja uma preocupação permanente dos estados relativamente à protecção do ambiente. A diminuição do nível de CO2 emitido em cada país é uma das metas estipuladas no protocolo.
Torna-se, então, indispensável que se encontrem formas de diminuição da quantidade de CO2 resultantes dos transportes urbanos e, essencialmente, dos automóveis.
Poluição
Viver hoje numa cidade obriga a suportar o ruído feito por milhares de automóveis, os seus motores, as suas buzinas e as vozes de condutores insatisfeitos. O que há anos era considerado o “barulho agradável da cidade” já não o é, devido ao número elevado de automóveis que circula cada dia no meio urbano.
As emissões de gases de escape também afectam a qualidade do ar urbano e o número de doenças respiratórias da população citadina tem vindo a crescer vertiginosamente nos últimos anos.
É essencial que se encontrem formas de redução do nível de poluição para devolver aos citadinos a sua qualidade de vida.
Circulação dos peões
Viver hoje numa cidade pressupõe, muitas vezes, participar numa corrida de obstáculos, tentando deslizar entre os automóveis estacionados na passadeira ou caminhar na estrada, porque o espaço tradicionalmente dedicado a peões está invadido pelos automóveis, já peças comuns do “mobiliário urbano”.
Áreas dedicadas exclusivamente à circulação de peões têm vindo a aparecer nas grandes cidades. Contudo, o comum é o peão não ter o seu espaço para caminhar e ser obrigado a invadir o espaço dos outros participantes no trânsito, o que aumenta o risco de acidentes e testa a capacidade de reacção e prevenção dos condutores.
E os efeitos não tardam em aparecer: a maioria dos peões feridos e mortos verificam-se em acidentes ocorridos dentro das cidades e resultam, na sua generalidade, de atropelamentos.
Enquanto surgem os novos paradigmas de mobilidade urbana e sustentabilidade, os problemas ligados ao desrespeito do peão em prol do automóvel, que datam dos anos 60, continuam actuais. E a cidade deve considerar respeitar os dois lados, privilegiando o peão.
Acidentes de viação
Desde a década de 70 a preocupação com a segurança rodoviária tornou-se premente e continua um problema actual. Com o aumento de acidentes de viação devido ao stress, cansaço e indisciplina dos condutores, é essencial que os automóveis estejam dotados de dispositivos que minimizem os efeitos dos acidentes de viação.
Mas os próprios condutores têm a capacidade de prevenir os acidentes se aplicarem os princípios da condução defensiva. Conduzir desta forma implica reconhecer que a actividade de condução na via pública é uma actividade de elevado risco para a saúde e para a vida. A precaução na condução é o primeiro passo para a segurança.
Este conceito, contudo, é desconhecido pela maioria dos condutores.
Stress
A falta de espaço de circulação urbana e a sua má gestão impedem um comportamento civilizado dos participantes no trânsito. Para chegar ao destino, muitas das vezes têm que se fazer manobras complicadas e arriscadas e a imaginação dos citadinos gasta-se no encontro de soluções inéditas e cada vez menos eficientes.
E o stress que a circulação numa cidade gera, torna os condutores impacientes e propensos a erros, que custam vidas humanas. E é o mesmo stress que afecta a sua própria saúde e aumenta a probabilidade de doenças cardíacas e de depressões.
Mas o stress não ataca só os condutores e os peões participantes no trânsito, mas também os habitantes da cidade, nas suas casas, que sofrem com a imagem desoladora dos engarrafamentos e dos milhares de automóveis que passam por baixo das suas janelas ou mesmo ao lado das suas casas. Sofrem também com os intermináveis atrasos dos outros habitantes, presos no trânsito, algures na cidade.
Sedentariedade
A nossa sociedade depara-se com uma tendência de aumento de sedentarismo. Por falta de exercício, por causa do trabalho, cada vez mais localizado no escritório, por causa do stress e da má alimentação e finalmente por causa do transporte confortável no seu automóvel, as pessoas têm ganho peso.
Tudo isso porque na cidade repete-se monotonamente o seguinte cenário. Os indivíduos saem de casa, entram no seu automóvel, conduzem até ao local de trabalho, trabalham na sua secretária, voltam para casa ao volante e depois recostam-se no sofá, cansados.
A sedentariedade é influenciada pelo uso do automóvel. A utilização de soluções alternativas, por exemplo da bicicleta, para se deslocar para o trabalho, poderá ajudar a inverter essa tendência.